... eu escrevo, eu me mostro, eu me escondo... São inúmeras possibilidades, apenas uma de mim. Quem sabe no que vai dar?

terça-feira, 4 de maio de 2010

Boa-noite

Fomos juntos a Paris. Eu já havia estado lá antes com meus pais, quando meu pai ainda era vivo. Mas, eu era só uma menina e me mantinham sob vigília o tempo todo. A família sempre cuidou de mim como se todos fossem meus pais.

Essa viagem foi diferente e mudaria toda a minha vida. Lorenzo me acompanhou. Eu ainda estava sob vigília mas ao menos ele era jovem e tinha bom gosto. Cansei daqueles aculturados com quem não podia nem conversar.

Fomos criados juntos. Meu padrinho adotou-o quando veio aos Estados Unidos, deixando a Itália. Seu pai havia sido primo do meu pai e do padrinho. Ele me acompanhou a todos os museus e espetáculos que tive vontade de conhecer. Conversamos sobre tudo. Jantamos em bons restaurantes, fomos à Torre Eiffel e passeamos pela margem do Rio Sena, como fazem os namorados, mas não éramos namorados. Ele sempre foi elegante. Foi a melhor semana que já vivi. Me senti livre pela primeira vez. Eu não estava sendo vigiada. Estava gostando muito.

Voltaríamos para casa no dia seguinte e ele me acompanhou à minha suíte pela última noite. Fazia questão de me levar até a porta apesar da suíte dele ficar a apenas alguns passos. Todas as vezes ele entrava primeiro, olhava se tudo estava em ordem, verificava as janelas e os armários, olhava todo o banheiro e em baixo da cama.

–– Estamos em Paris! –– Tinha que lembrá-lo. Mas ele apenas sorria e me dava boa-noite. Nessa última noite foi diferente. Depois de revistar meu quarto, voltou-se para mim. Olhou nos meus olhos, coisa que raramente fazia e sorriu.

–– Queria que pudéssemos sair novamente. Mas vamos voltar amanhã e volta tudo a ser como antes.

–– Ora, o que é isso? Não moramos a apenas algumas quadras um do outro? Mamãe vai gostar de lhe ver. Faz tempo que não nos visita. Me telefone e vamos a algum lugar. Sempre passamos os dias juntos quando crianças.

–– Não somos mais crianças –– e segurou a minha mão no seu último boa-noite em Paris.

Não tive reação. Apenas olhei quando ele passou pela porta e foi para o seu quarto. Não consegui dormir. Arrumei minhas coisas e fiquei deitada pensando no que significou aquilo. Nunca havia pensado nele dessa forma.

No dia seguinte voltamos. O carro estava nos esperando. Acho que percebeu o quanto meu rosto ficou vermelho quando tocou minha mão para me ajudar a sair do carro. Ele apenas sorriu enquanto me olhava entrar em casa. Eu estava entregue. Não pude me despedir.

Na tarde seguinte liguei para ele. Estava mal acostumada a jantar nos restaurantes de Paris. Ele me acompanharia a um naquela noite. Eu ainda me arrumava quando ele chegou. Minha mãe o levou à sala em que sempre me esperava. Momentos depois tocou o telefone. Eu atendi a extensão que ficava em meu quarto e escutei. Ele recebia ordens do padrinho.

–– Não acredito que tenha sido ele, padrinho. Ele se preparava para assumir o negócio novo e não botaria tudo a perder.

–– E o rapaz novo? O que sabemos sobre ele?

–– Padrinho, é uma acusação séria. Muito gente gostaria de botar as mãos nisso. Eu vou investigar pessoalmente.

–– Agora o mais importante: que conversa é essa que escuto que vai sair com minha afilhada? A viagem já acabou e suas ordens foram claras. Se virou um animal, vá ao zoológico! Ela não é um pedaço de carne!

–– Padrinho, não é assim. Vamos apenas a um restaurante e nunca lhe faltei com o respeito. Preocupo-me com ela.

–– Padrinho, me escute –– interrompi.

–– Quem fala? É você querida? Será que não há nada que eu não possa fazer ou falar que você não fique sabendo? É igualzinha ao seu pai. Como você está?

–– Desligue a linha, Lorenzo, quero falar a sós com ele. (...) Padrinho, porque acha que deve controlar a minha vida? Já cresci. Posso me cuidar agora.

–– Você vai sempre ser a minha garotinha. Não tire esse gosto de um velho.

–– Ninguém nunca é bom o suficiente para o senhor. Lorenzo é meu melhor amigo. Tirando o senhor e a mamãe, não há ninguém em quem confie mais. Não pode me afastar dele.

–– Não vai sair com ele. Não é direito. Jurei a seu pai que preservaria você e sua mãe. Fique em casa e mande que ele volta à dele.

–– Padrinho, amo o senhor como se fosse meu pai. Jamais o desrespeitaria. É apenas um jantar.

Desliguei o telefone sem a menor culpa. Ele me educou para ser decisiva e eu já me decidi. Amanhã me entenderia com ele. Não havia raiva que ele pudesse ter de mim.

Jantamos e conversamos. Ele sempre muito cortês. Acho que poderia dar certo. Como pude mudar o que sinto por ele assim? Essa ideia nunca havia me passado pela cabeça. Depois do jantar fomos ao cinema. E, lá, ele me beijou. Não foi um beijo demorado. Foi só um toque muito leve. Pediu desculpas. Segurei sua mão e vimos o resto do filme.

Ele me deixou em casa e beijou minha mão. Olhou-me novamente nos olhos e me deu seu último boa-noite. Teríamos nos casado, eu sei. E eu poderia ter sido feliz. Não foi assim que aconteceu.

4 comentários:

Malthus disse...

Olha, que conto da p. Muito massa. Muito bom mesmo. Você deveria escrever muito mais disso. bjs

Raquel disse...

Q triste :(

Macabea disse...

muito massa, gata
tu ahaza!

Catarina de Queiroz disse...

Obrigada pelo incentivo! Vou tentar escrever mais. Só que esse veio num sonho. Se eu sonhar mais vezes assim...